Siga-nos no flickr
Siga-nos no youtube
Siga-nos no twitter
Siga-nos no tumblr
Siga-nos no instagram
gallery/acrm logotipo vários - site
ASSOCIAÇÃO DO CAMINHO REAL DA MADEIRA
Siga-nos no facebook

1ª caminhada CR23

Relato da primeira Caminhada CR23 organizada pela ACRM: 7 a 14 de Abril de 2017

DIA 1 – 7 de Abril

---

0km @ Machico

Um grupo de 5 sai do berço da "conquista" da Madeira para trilhar o #CR23.

---

4,1km @ Água de Pena (1560)

Passando pela primeira freguesia a aquecer as pernas com a subida do caminho das Voltinhas.

Diz-se que Água de Pena deve o seu nome à água em abundância que se precipitava de uma "Pena" (corruptela de Penha) que se via do mar. Reza a lenda que a Fonte do Seixo tem uma ligação em túnel às Furnas do Cavalum, onde se diz que uma cabra fez a travessia de um para o outro.

O regozijo ao encontrar um troço original do #CR23 limpo foi explicado logo depois de encontramos no local o sr. Luís Silva da junta. Encontrava-se a limpar o caminho porque hoje haverá missa na Fonte do Seixo às 19h seguindo em procissão até à Igreja de Santa Beatriz. Um bem-haja.

Parceiro #CR23: Bar Riko Riko

---

7,8 km @ Santa Cruz (1450)

A segunda freguesia da capitania de Tristão Vaz Teixeira cresceu tão rapidamente como a rivalidade entre Machiqueiros e Soviéticos (alcunha dada em Machico aos santacruzenses depois de 1975). Já em 1635, Manoel Thomas escrevia na "Insulana" sobre s origem do nome da actual sede de concelho:

"Fazia todo junto, um bosque umbrozo

Onde de um tronco antigo derribado

mandado do Zarco fabricado;

E no meyo do valle, entam fermozo,

Pellos seus portuguezes, arvorado;

Porque se pouo ally se edifficasse

De Sancta Cruz o nome lhe fiquasse”.

Aterramos em Santa Cruz e o calor começa a se fazer sentir e nem uma brisa para refrescar ou borregar aviões. A azáfama mostra-se no Aeroporto da Madeira Cristiano Ronaldo com descolagens e aterragens onde outrora existiu um Convento da N.S. da Piedade para 15 Franciscanos, extinto em 1834.

À porta da capela de Santo Amaro um papel afixado anuncia que "O Grupo de oração estará na casa da Eduarda" enquanto nós estaremos no #CR23 a caminho do Funchal.

Parceiro #CR23: Restaurante Do Dia Pra Noite

---

10,4 km @ Gaula (1558)

Abundante em água, Gaula tem como património municipal os seus fontanários a cantaria vermelha orlados por áreas ajardinadas, promovendo turisticamente a sua "Rota da Água". Nos tempos idos era no seu Porto Novo que se faziam viagens marítimas ao Porto Santo transacionando lenha e alimentos por cereais e gado ou para pescarias de bodiões e lapas nas Desertas.

O Solar de São João Latrão, cuja capela incendiou em 2012, constitui um marco arquitetónico da freguesia que infelizmente se encontra abandonado apesar dos rumores de uma recente aquisição.

Gaula, para além do romance histórico "Amadis de Gaula", é conhecida como 'terra de amoras', 'terra de malvasias', 'terra de doutoures', 'terra de padres', 'terra de adelos'. Nós seguimos caminho à procura de terra de cozinheiros. 🍽

Parceiro #CR23: Pastelaria da Lombadinha

---

17,59 km @ Caniço (1558)

Foi no Caniço que Zarco e Tristão viram desenhada a fronteira entre as suas capitanias e que, segundo Gaspar Frutuoso, mereceu desde cedo a classificação de "logar" (povoação intermédia entre vila e paróquia). Contudo, as rivalidades que se faziam sentir obrigaram à erecção de duas igrejas, a do Espírito Santo e a de Santo Antão, uma de cada lado da ribeira que dividia a povoação. Esta freguesia triplicou a população desde 1940 até às actuais 23 mil almas cujo gentílico é "Caniceiros" ou "Ceboleiros", em face à elevada produção agrícola deste bolbo.

Depois da subida pelo Forte do Porto Novo (mais um património a merecer melhor atenção) e o amigo Nelson Rosário fez-nos a surpresa de providenciar a abertura de um dos mais antigos templos Marianos da Madeira: a capela da Mãe de Deus. Neste imóvel de interesse municipal, descobrimos uns fantásticos recortes de pedra trabalhada.

Impõe-se uma paragem para almoço tardio antes de entrar no concelho do Funchal. Talvez uma espada de cebolada... 😜

Parceiro #CR23: Bar A Fonte

---

22,75 km @ São Gonçalo (1558)

O primeiro dia vai chegando ao fim com a entrada em São Gonçalo e a vista soberba sobre o Funchal oferecida pela capela das Neves.

O lapeiro regedor, que nos recebeu à entrada do concelho, acompanhou-nos numa visita guiada desde a Cancela até às pontes do Lazareto, refrescando-nos a sede na Mercearia do 'Tá Reles' fundada em 1901.

Parceiro #CR23: Restaurante/café Boavista (ex-Tic Tic)

 

 

---

26,56 km @ Santa Maria Maior (1425)

Um cão ocioso faz de guarda à entrada de Santa Maria Maior.

No Lazareto, o forte da Ribeira de Gonçalo Ayres, preserva-nos na memória da protecção contra corsários que aportavam no local que já serviu de Lazareto.

Ao passar pela Igreja do Socorro, morada do padroeiro do Funchal, Santiago Menor, os bares apinham-se de gente para o culto social do final da semana de trabalho.

Na zona velha, os odores das diferentes iguarias confeccionadas que invadem o ar à nossa passagem fazem crescer água na boca.

Na margem oeste da Ribeira de João Gomes, três dos habituais disputam a bebida numa renhida milhada enquanto do outro lado do Forte de São Filipe o autocarro 13 para o Jamboto enche-se com cansaços acumulados.

Nós, também cansados, chegamos à cidade!

A freguesia de Santa Maria Maior era inicialmente conhecida por Santa Maria do Calhau. Os primeiros povoadores chegaram à baía do Funchal, entre 1420 e 1425, com um padre franciscano, um dos três encontrados no Porto Santo que havia naufragado a caminho das Canárias. Essa pequena população teve logo necessidade de acompanhamento religioso, pelo que se deve ter organizado em freguesia. Entretanto, a Ordem de Cristo, ciosa dos seus privilégios espirituais nas novas terras, enviou prontamente um padre em 1433, afastando assim a influência franciscana. Pensa-se que o início da construção da pequena capela de Nossa Senhora da Conceição, junto ao calhau da praia, em 1438, ficou a dever-se àquele padre.

A primitiva igreja de Santa Maria do Calhau acabaria por ser destruída pela aluvião de 9 de Outubro de 1803, quando pereceram cerca de 200 pessoas afogadas na parte baixa do Funchal.

Parceiro #CR23: Barreirinha Bar Café

---

29,50 km @ Sé (1486)

O final do primeiro dia de #CR23 faz-se com a chegada à freguesia da Sé, cuja diocese que chegou a liderar o Novo Mundo. A catedral serviu de fundo aos 5 que partiram de Machico com mais km nas pernas do que era previsto. É assim o Caminho. São os desvios que normalmente não contabilizamos onde se encontram as melhores experiências.

O sol primaveril que se fez sentir durante o dia deixou algumas marcas de insolação na pele de alguns caminheiros, apesar do factor 100 aplicado. A inspirar cuidados amanhã.

Um banho retemperador na Pousada da Juventude do Funchal, que tem umas condições excepcionais, roupa fresca e uma visita a uma outra catedral, esta dos sabores: o Castelo dos Hambúrgueres.

Há boa disposição. Amanhã há mais caminho.

Parceiro #CR23: Bar Avô

---

DIA 2 – 8 de Abril

---

29,50 km @ Sé (1486)

Dormir na primeira pousada da juventude da Madeira, instalada numa quinta tradicional madeirense do sec. XIX bem no coração da cidade, é um privilégio. Já acordar entre o melódico chilrear da passarada onde normalmente se ouvem sons do tráfego automóvel com uma vista sobre a fortaleza do Pico (construída por Mateus Fernandes após o ataque dos corsários de Montluc de 1566) é um luxo.

Se ontem inauguramos o #CR23 na companhia de Tristão Vaz Teixeira, hoje partimos da estátua a João Gonçalves Zarco feita pelo escultor Francisco Franco. O local da sua colocação no centro do Funchal em 1934 passou a servir de referência como ponto de partida das estradas entre concelhos (CR24, CR25 e CR27).

Com a comitiva de 8 pessoas na caminhada até à Ribeira Brava e a previsão de um dia igualmente veranil será recomendável untarmos a pele com protector solar.

Alojamento Recomendado #CR23: Pousada da Juventude do Funchal

---

35,80 km @ São Martinho (1579)

Com o grupo a aumentar para 11 caminheiros entramos na freguesia de São Martinho pela Ponte Monumental, construída em alvenaria e pavimento calcetado com pedra quebrada.

Aqui os primeiros 9 km originais do #CR23 tomam a rota da primeira estrada da Madeira — a estrada Monumental — que seria concluída com a ponte dos Socorridos, em 1851.

Foi nesta estrada que circulou o primeiro automóvel na Madeira entre o Funchal e Câmara de Lobos, conduzido por Harvey Foster em 1904.

Os naturais desta freguesia são conhecidos como Rabichos. O Duarte Caldeira arriscou uma explicação que envolvia os efeitos do calor nas pontas da batata doce na zona do Arieiro. Não sei se convence...

Parceiro #CR23: Mercearia Avô António

---

39,4 km @ Camara de Lobos (1430)

A nossa subida da Cruz da Caldeira, após o tónico muscular na forma de uma poncha de pitanga, tem como prémio uma pausa para almoço. O sol deu tréguas para aligeirar aquela que é a mais difícil contagem de montanha do dia.

Quando Zarco chegou a um local onde "a Natureza fez uma grande lapa ao modo de uma câmara de pedra e rocha viva" e aportou com "os batéis donde acharam tantos lobos-marinhos que era espanto", chamou-lhe Câmara de Lobos.

Terra de gente trabalhadora no mar e na terra, tem uma forte tradição piscatória aliada a um aproveitamento meticuloso dos terrenos agrícolas encosta acima.

Parceiro #CR23: Bar Vaquinha Do Calhau

---

46,3 km @ Quinta Grande (1848)

Depois de um almoço os passos fazem-se de forma mais lenta. Na freguesia da Quinta Grande, nascida fruto de um spinoff do Campanário, os quinteiros empenham-se na agricultura apesar da lassidão do tempo para caminheiros em digestão.

Depois de vencida a subida mãe do dia e ante a frescura atmosférica que a nebulosidade permite, o grupo sente-se confiante na descida até à Ribeira Brava.

Parceiro #CR23: Flor do Sal

 

 

 

---

49,3 km @ Campanário (1556)

A D. Fátima bordava à nossa passagem pelo #CR23 e fez questão de nos relatar os feitos botânicos herdados da sua mãe com um orgulho vincado no rosto e alguma saudade à mistura. Chegávamos ao miradouro da NS do Bom Caminho que oferece uma vista magnífica sobre o vale do Campanário.

Quando os descobridores chegaram à Madeira, na exploração marítima da costa Sul, viram ao longe, um pequeno ilhéu que lhes pareceu à distância ter a forma de um campanário. Por esse motivo passaram a designar por Campanário as terras circunvizinhas. A antiga freguesia do Campanário era conhecido como o «celeiro das conquistas» por ter sido centro importante de trigo e centeio, exportados para as costas do Norte de África.

Parceiro #CR23: Restaurante A Central

---

56,3 km @ Ribeira Brava (1440)

Estão cumpridos os 2 primeiros dias da volta à Madeira e o grupo chegou à Ribeira Brava, terra dos viscondes que recebeu o seu nome pela impetuosidade das águas que rolam encosta abaixo rumo ao mar pela ribeira que sulca este vale.

O dia de hoje fez-se num #CR23 bastante urbanizado, onde a paisagem releva a abundância em abundância que vai crescendo nos terrenos baldios, dando-se a mostrar pelo alvor da sua floração. Amanhã entraremos numa outra Madeira.

O cansaço ganha corpo no corpo sendo contudo refreado com um banho e pela resoluta determinação das mentes empenhadas em cumprir o desafio. Afinal, estamos no Bom Caminho.

Parceiro #CR23: Bar Jamaica

 

---

DIA 3 – 9 de Abril

---

49,3 km @ Ribeira Brava (1440)

Hoje somos 6 à partida para o Estreito da Calheta e o Domingo vestiu um céu limpo para nos acompanhar.

Noite de sono bem dormida na pacata vila da Ribeira Brava aproveitada para debelar as primeiras mazelas. O terceiro dia é sempre a prova de fogo. Se acabarmos este sem o corpo reclamar, estaremos prontos para dar a volta ao Mundo a pé. Por enquanto, e face aos convidativos aromas que exalam da pastelaria, cedemos à gula por uma bola de Berlim cujas calorias serão derretidas pelo #CR23.

Alojamento Recomendado #CR23: Hotel Brava Mar

 

 

---

51,7 km @ Tabua (1588)

A freguesia mais pequena do concelho da Ribeira Brava é atravessada por uma ribeira que tem origem nas vertentes do Pico das Pedras (1510m de altitude) na direcção norte-sul, que desemboca na sua pequena orla marítima. Esta vertigem hidrológica tem causado, ao longo dos tempos, dissabores aos tabueiros que viram a fúria das águas levar o seu templo.

Esta freguesia era tradicionalmente conhecida pelo nome “Atabua”, nome que ainda hoje lhe é dado pelo povo. Em 1838 o seu nome foi alterado para Tabua pelo Padre António Francisco Drumond e Vasconcelos. O nome “Tabua” deriva de uma planta denominada tabua que abundava por aquela região, utilizada no fabrico de esteiras e fundos de cadeiras.

Os antigos dizem que no início do século passado uma rocha em forma de arco na margem da ribeira oposta à igreja era utilizada para enforcamento dos insurrectos, onde o cadáver permanecia a balançar como farol da justiça popular.

Rumaremos à Ponta do Sol na esperança que tenha sido apenas uma lenda.

Parceiro #CR23: Posto de Combustível Serrão

---

56,6 km @ Ponta do Sol (1440)

Chegámos à Ponta do Sol em passo estugado porque os túneis da Via Expresso (alternativa ao #CR23 que passava na beira da rocha e encontra-se obstruído) não guardam qualquer ponto de interesse.

Aqui junta-se à comitiva um grupo de 4 noctívagos à procura de redenção espiritual no decalque dos passos dos seus antepassados.

A Ponta do Sol tem o mais bonito porto marítimo da costa Sul, importante entreposto comercial nos séculos anteriores, para onde convergia a produção agrícola desta localidade, havendo inclusive uma ligação a São Vicente pelo Caminho Real 28.

A fertilidade dos solos foi desde sempre aproveitada para as chamadas culturas ricas, sendo na época da colonização um dos mais activos centros de produção agrícola, especialmente da cana de açúcar.

Parceiro #CR23: Bar da Esquina (Fechado)

 

---

58,0 km @ Canhas (1577)

Caminhada abençoada com esta chuva permanente sobre o #CR23, um cartaz da freguesia dos Canhas.

Freguesia rural com predominância agrícola, nomeadamente, em cana de açúcar, à qual se realiza, anualmente, a feira da cana. O seu litoral foi povoado originalmente por monges franciscanos que aqui prosperaram no Sec. XV, desconhecendo-se os motivos do seu abandono do local, deixando uma capela em honra à N.S. dos Anjos.

Parceiro #CR23: Estrela dos Anjos

 

 

 

---

60 km @ Madalena do Mar (1457)

O gorgolejar do calhau embalado pela ondulação que banha a praia da Madalena foi a banda sonora que nos acompanhou na travessia da freguesia. À entrada, no bairro dos pescadores, fomos recebidos com a simpatia das gentes do mar, de conversa fácil guardando toneladas de historias por narrar. Um senhor de cabelos brancos e tez queimada pelo sol, Leopoldo, proprietário do barco 'Kim', aborda-nos lançando um "já tive no mundo todo menos no Inferno" como cartão de visita, zarpando para outras conversas.

A Madalena do Mar é uma pequena vila piscatória localizada na costa sudoeste da ilha com belas vistas de mar e de falésias. O seu nome vem dum lendário príncipe polaco do século XV chamado Henrique Alemão que, em 1444, perdeu uma batalha, oferecendo-lhe terras por estas bandas João Gonçalves Zarco. O pretenso rei Henrique Alemão, que acabou por perecer numa viagem de barco ao Funchal vítima de uma quebrada que atingiu a embarcação, aqui estabeleceu uma populosa quinta onde construiu uma capela dedicada a Santa Maria Madalena que hoje dá nome à freguesia.

Actualmente a Madalena do mar é a maior produtora de banana da Madeira, sendo também referência entre a comunidade do mergulho submarino como um conhecido spot num actual recife, localizado onde afundou na década de 90 navio alemão 'Bom Rei'. Irónico e caso para dizer que foi o regresso a casa do Rei Alemão.

Parceiro #CR23: Bar Bairro Pescadores

---

64 km @ Arco da Calheta (1572)

A entrada no concelho da Calheta fez raiar o sol sobre o #CR23. Depois de passarmos pela Fajã do Mar e a sua mágica capela fomos recebidos na Quinta do Conde pela hospitalidade da D. Celeste que nos presenteou com o seu famoso bolo de laranja, para nos enganar o estômago até o almoço no centro da freguesia.

Esta freguesia foi um dos mais antigos locais da Ilha sujeitos à colonização e exploração agrícola após o descobrimento e é uma das freguesias mais ricas em preciosidades patrimoniais e artísticas. Por aqui se fixou João Fernandes Andrade, um plebeu que conquistou o título nobiliário pelo mérito nas conquistas de Arzila e Tânger em 1471, ficando conhecido como João Fernandes do Arco, onde possuiu vastas terras de pão, engenho e escravos, e instituiu uma casa vincular, com capela e capelão privativo, nos finais do séc. XV.

Actualmente o Arco é um spot excelente para as actividades de voo como o parapente.

Parceiro #CR23: Padaria O Dragoeiro

---

69,8 km @ Calheta (1430)

À nossa passagem, as canas de açúcar esvoaçam ao sabor da brisa de final de tarde e na praia os banhistas amealham na pele os últimos raios de sol. O silenciar dos motores, entretanto abafados pelo chilrear da passarada, anuncia a nossa saída do centro pelas traseiras do Engenho e da igreja Matriz. Saímos da sede de concelho para nos embrenharmos na pacatez da ruralidade até ao final de terça feira encontrarmos o Porto Moniz. Um grande alento para percorrer os últimos km do #CR23 que nos conduzirão à Pousada da Juventude do Estreito da Calheta com uma paragem na Fonte da Senhora para colocar o selo na Credencial do Caminheiro.

À chegada à Estrela fomos surpreendidos com um lanche providenciado pelo nosso Caminheiro Antero.

Julga-se que a origem do nome desta freguesia provenha da pequena baía ou enseada, que lhe serve de porto, pois é esse o verdadeiro significado da palavra calheta embora outros afirmem que calheta seria o entreposto aduaneiro.

Esta zona foi escolhida por Zarco para nela doar vastos terrenos a seus filhos sendo das mais antigas da Ilha e uma das primeiras que começaram a ser exploradas pelos primitivos colonizadores. Foi berço adotivo de nobres fidalgos e cavaleiros, cujos nomes perpetuam-se na toponímia da freguesia como Lombo do Doutor ou Lombo do Atouguia.

Parceiro #CR23: Fonte da Senhora

---

72,0 km @ Estreito da Calheta (1550)

Final do 3° dia fez-se com o anoitecer como pano de fundo passando por duas das inúmeras capelas que o concelho conta no seu património, consequência das fazendas que noutros tempos produziam a cana do açúcar.

Um autor incerto descreve este local assim: "As casinhas lá em cima, bem na crista da montanha, os campos a seus pés, rendidos ao trabalho persistente do homem… o cheiro a terra fresca, a horta e a fartura… É este o Estreito da Calheta, autêntico, verdadeiro, solarengo. À espera de um visitante sensível que saiba apreciar."

Visitantes que saibam apreciar? Somos nós!

Parceiro #CR23: Minimercado Paraú

 

---

DIA 4 – 10 de Abril

---

72,4 km @ Estreito da Calheta (1550)

Após uma noite de repouso em mais uma Pousada da Juventude com magníficas condições onde éramos os únicos hóspedes acordámos para um dia que se prevê de aguaceiros. Mantendo o horário de saída às 9:00, num grupo de 7, partimos para o quarto dia de #CR23.

As nuvens sobre o mar ostentando um matizado de azuis e cinzentos a lembrar um quadro renascentista e uma calma imensa a apelar à interioridade das coisas. Talvez por isso tivemos a sorte de, ao passar pela igreja, encontrar o Padre Rui para abençoar a nossa caminhada.

E vamos ao caminho até à Lombada dos Marinheiros que hoje joga o Marítimo.

Alojamento Recomendado #CR23: Pousada da Juventude do Estreito da Calheta

 

---

80,0 km @ Prazeres (1676)

Caminhar pela manhã em meios rurais deve ser das melhores sensações que podemos experimentar num lento acordar. Nos terrenos a azáfama já vai alta, seja no labor da agricultura ou nos cabritos que saltitam na brincadeira por entre a erva regada pelo orvalho.

A subida para os Prazeres desde a Ribeira Funda foi penosa, qual calvário, dada a densidade de carqueja, silvado, fetos e abundância que aqui medram no meio do #CR23. Resultado: uns valentes riscos na pintura das pernas e braços perfumado com a fragrância libertada pelos poejos quando pisados pelos nossos pés calçados. Como prémio divino, fomos brindados com a gentileza do sr. Padre Rui de uma sidra quentinha na sua quinta pedagógica. Deus protege os Caminheiros.

A freguesia dos Prazeres foi criada por separação do Estreito da Calheta. A sua designação provém de uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres edificada antes da criação da paróquia. Local de terra fértil, de gente dedicada cujo gentílico é capões, tem tradição recente na mostra dos espantalhos.

Parceiro #CR23: Meu Super

---

84,53 km @ Paul do Mar (1675)

Com tanta bênção só faltava a chuva para selar o contrato divino que logo caiu, primeiro de mansinho em pequenas gotículas e depois em grossas bategas. Na íngreme descida para o Paul do Mar, outrora circuito regular de trocas comerciais entre os produtos da faina de cá de baixo e da safra de lá de cima, o cheiro a terra invadia o olfato dos caminheiros enquanto nos esforçávamos para manter a tracção.

Memórias de outros tempos em que a socialização fazia-se à custa de suor e solas gastas por tapetes de pedra em vez dos contemporâneos gigabytes que se propagam por fibra óptica.

Na nossa chegada ao cais, já ia longe a traineira que havia zarpado e a chuva deu-nos tréguas até ao local do almoço. Depois, durante a pausa para almoço, a chuva abicava-se copiosamente rimando com o marulhar da forte ondulação de fazer as delícias de um qualquer surfista.

A designação adveio-lhe do facto ser inicialmente um terreno alagadiço onde actualmente existe o campo de futebol. Diz-se que nos pauleiros corre-lhes o mar no sangue, trabalhando muitas vezes na pesca no estrangeiro como no Panamá ou nas Antilhas Holandesas.

Veremos se o temporal adormece e o tempo se compõe para a subida que nos falta até à Fajã da Ovelha pelo #CR23, actualmente vereda dos Zimbreiros.

Parceiro #CR23: Bar Os Pescadores

---

92,0 km @ Fajã da Ovelha (1560)

O dia com menor distância percorrida no #CR23 assumiu-se também como aquele com mais obstáculos para transpor. Desde o corta-mato matinal às chuvas vespertinas, das dores nos joelhos da descida à pressão sobre os gémeos na escalada da vereda dos Zimbreiros as dificuldades tornaram a conclusão desta jornada mais saborosa. O soberbo almoço no Paul do Mar, a pérola escondida que é a arte sacra na igreja da Fajã da Ovelha que será em breve restaurada e a hospitalidade destas gentes que nos abrem as portas e, como o sr. Caires, dão-nos a provar o vinho novo.

O site da junta, presidida pelo amigo Gabriel, também apaixonado pelo #CR23, indica que a denominação da freguesia derivará de um eventual assentamento de terras anteriormente desmoronadas e que funestamente colheram uma ovelha. Este acontecimento ficou tão marcado na memória das populações que alastrou a toda a freguesia. Daí...Fajã da Ovelha.

Chegámos todos ao final da jornada sem mazelas de maior. Nada que um bom banho não resolva. Na venda do sr. José Luís, local de colocação do selo na Credencial do Caminheiro, compramos os ingredientes para confeccionar o jantar no hostel e celebramos a vitória do Marítimo ficando o selo para ser colocado amanhã.

Parceiro #CR23: Venda José Luís

---

DIA 5 – 11 de Abril

---

92,0 km @ Fajã da Ovelha (1560)

Noite bem passada num alojamento local muito acolhedor onde partilhámos a sala de jantar com duas famílias francesas à descoberta da Madeira (de Lille). Na conversa entabulada, ficaram encantados com o "chemin royal du Madère" mas assustados com os cerca de 200 km de caminho.

Apesar do vento ter uivado a noite toda e da previsão de aguaceiros, prelúdio da entrada na costa norte, o dia recebe-nos com uma fresca manhã de sol e muitos quilómetros pela frente.

Hoje seremos 8 a dobrar a ponta oeste da ilha. Godspeed!

Alojamento Recomendado #CR23: Madeira Native Motion

 

 

---

98,0 km @ Ponta do Pargo (1556)

"O meu suor está acolá.", diz-nos a D. Maria Arseolinda apontando para a igreja enquanto acompanhava os nossos passos até ao centro da freguesia. "Eu quando era nova acartei areia às costas desde o calhau para a torre da igreja.", acrescentou em jeito de desafio orgulhando-se das suas capacidades físicas na juventude.

O silêncio impera no oeste madeirense onde os ponteiros do relógio cedem à preguiça. O coaxar de batráquios imersos no suave deslizar da água para o mar embala o paciente ruminar dos bovinos nos pastos cujo verde contrasta com o azul do céu. A quietude mora aqui nas margens do #CR23.

Diz-se que quando os descobridores andavam a desvendar a costa sudoeste da ilha, aqui pescaram um peixe de maravilhosa grandeza, dando origem do nome desta freguesia: Ponta do Pargo.

A sua ligação ao mar, sem ter qualquer praia, assumiu uma importância primordial para a navegação, com o seu farol.

Parceiro #CR23: Restaurante O Farolim

 

---

108 km @ Achadas da Cruz (1848)

Na chegada ao centro da freguesia das Achadas da Cruz, após um percurso pela ER101 que absorve o #CR23, três chadeiros discutiam de viva voz em torno de uma mesa sobre a técnica construtiva da mesma, sendo interrompidos pela chegada de 8 forasteiros a desejar os bons dias.

Pelo caminho vislumbramos algumas espécies endémicas da floresta Laurissilva com barbas a ondular ao sabor do vento. Aqui ultrapassámos a centena de quilómetros no acumulado desta volta à ilha, o que mereceu um brinde na venda do Sr. António com uma degustação da sua mundialmente famosa macia.

As Achadas da Cruz, eram o limite da divisão das capitanias entre Tristão e Zarco, pertencendo à capitania do Funchal. Pertence ao concelho do Porto Moniz mas aquando da extinção deste concelho por duas vezes, em 1849 e em 1895, passou esta freguesia a fazer parte do concelho da Calheta.

Há uma salutar rivalidade entre Achadas da Cruz e Ponta do Pargo, havendo inclusive uma lenda na qual se diz que os chadeiros reclamaram para si a madre da bonita levada dos Moinhos em troca de um balde de figos oferecido aos pargueiros dizendo que as sementes eram venenosas.

Se na toponímia da freguesia, o nome 'Cruz' advém de uma antiga capela da Vera Cruz, já o topónimo 'Achadas' é originário da abundância de salvados do mar que dão à costa no 'Calhau das Achadas'. Um relato de um recente naufrágio versa o seguinte:

"Um acontecimento verdadeiramente sensacional para esta e mais freguesias limítrofes foi o do naufrágio do yacht americano Varuna. Este navio saíra das Bermudas a 7 de Novembro de 1909, com destino à Madeira, trazendo a bordo o seu proprietário, o milionário americano Eugene Higgins, e naufragou nas costas da freguesia das Achadas da Cruz pela madrugada do dia 16 do referido mês. O mar estava calmo, atribuindo se o sinistro à cerração que fazia, e parece que em boa parte ao descuido do timoneiro e vigias de bordo. Salvou-se o proprietário do Varuna e três senhoras que o acompanhavam, o capitão e mais oficiais, tendo morrido apenas um marinheiro. Era um barco luxuoso, que várias vezes visitara o nosso porto, tendo cerca de 50 tripulantes e a lotação aproximada de 1600 toneladas. Pouco depois do encalhe, começou uma grande agitação do mar, impedindo o salvamento regular dos pertences do navio e dos valiosos objectos que trazia bordo. A violência das ondas foi se encarregando da destruição do yacht, arrojando às costas vizinhas e impelindo para o alto mar os preciosos destroços do naufrágio. Afirma-se que o milionário americano perdera neste sinistro um riquíssimo colar de pérolas da mais pura água, bordando se em torno do suposto encontro da preciosa jóia varias invenções e fantasias que nos parecem destituídas de qualquer fundamento sério."

Após a paragem que se impunha na Mercearia pusemo-nos ao caminho com a promessa de bom tempo a Norte e uma miragem de mergulho nas piscinas naturais do Porto Moniz. À saída, uma vaca bem nutrida, quiçá esquecida de tempos faustosos, faz-se de concierge despedindo-se com um sonoro 'MU'...

Parceiro #CR23: Mercearia e Bar Central

---

119,5 km @ Porto Moniz (1572)

A hospitalidade nortenha é, sem margem para dúvidas, um património imaterial da nossa ilha. Mal entrámos na Santa do Porto Moniz fomos surpreendidos por convites para retemperar as pernas e animar o espírito. Primeiro os amigos Adriana e Crispim com um petiscos e um Rosé madeirense 'Barbusano', depois o amigo Pestana com uma degustação de hidromel a adoçar a boca aos caminheiros e uma expedita lição de apicultura, finalmente, à chegada à Praça do Lyra, fomos convidados ao Tribunal Bar para uma recepção que soube como um regresso a casa onde até Herberto Hélder foi declamado.

A freguesia do Porto Moniz é das mais antigas do Norte e chamam a estas terras «Janela da Clara» antes da sua constituição formal. Um dos seus mais antigos povoadores era casado com uma bisneta de Zarco e chamava-se Francisco Moniz, “o Velho”, devendo-lhe a freguesia o porto com o seu nome.

A descida para a vila pelo #CR23, actual vereda do Pico, permitia uma esplendorosa panorâmica sobre o mar, com o avistamento do Porto Santo que, entre os locais, antecipa a chegada de chuva. Dito e feito, ela chegou, pontual, à hora do jantar.

De qualquer modo, esta vista é de suster a respiração em antecipação às paisagens que o Norte nos reserva.

Parceiro #CR23: Supermercado Amanhecer

---

DIA 6 – 12 de Abril

---

120,0 km @ Porto Moniz (1572)

No norte o acordar é sempre mais puro e simples. Talvez pelo coro noctívago de lamentos das cagarras e do compassado arremesso do oceano contra as rochas a levantar uma maresia que nos inunda os pulmões.

No nosso sexto dia partimos 8 à descoberta do #CR23. Sem pressas porque o dia reserva-nos mais uma experiência desafiante aos 5 sentidos, começando pela subida até à Eira da Achada.

Alojamento Recomendado #CR23: Pousada da Juventude do Porto Moniz

 

 

 

---

125,7 km @ Ribeira da Janela (1848)

Na chegada à bonita igreja de NS da Encarnação, engalanada para a semana santa, encontrámos a estátua da Mãe Cristininha a nos acenar da sua janela, homenagem de um seu filho pródigo desta terra, Antonino de Ponte. Logo acima do adro, a venda da D. Maria resiste à pressão da globalização, apresentando-se com as portas orgulhosamente abertas e um optimismo invejável.

A Ribeira da Janela, que recebe o nome advindo do ilhéu empedernido em frente à foz do mais extenso e abundante curso de água da Madeira, é das freguesias menos populosas, contando apenas com 228 almas cuja alcunha colectiva designa por Rabichados.

É nas serras desta freguesia que bate o vetusto coração da Laurissilva, o Fanal, famoso pela sua lagoa e pelos seculares tis, alguns dos quais necessitam de cerca de dez pessoas de mãos dadas para circunscrever o tronco.

Foi nesta freguesia que, em 1940, se instalou a primeira armação baleeira na Madeira com a construção de um “traiol” (estação rudimentar para a extração do óleo pelo meio de panelas de grande dimensão, assentes sobre fogo direto) localizado a Este da foz da ribeira com a colaboração de baleeiros açorianos. A vigia que dava abrigo aos homens que sondavam o mar em busca dos “espartos” (termo açoriano para o sopro das baleias) foi erigida a meia encosta na vila do Porto Moniz.

Com a subida mais difícil do dia nas pernas dobrámos a Eira da Achada em direcção à Ribeira Funda (um dos mais pitorescos locais na Madeira, apenas com uma dúzia de habitantes) pelo #CR23 abraçado pela floresta Laurissilva, hoje conhecido como Vereda da Tranquada.

Parceiro #CR23: Bar Eira da Achada

---

135,6 km @ Seixal (1553)

Da travessia da floresta mágica saímos com o espírito em paz. O mesmo não se dirá da parte física que bem precisava de uma infusão de madre-louro (na foto) para curar males do corpo. Joelhos em crise, tornozelos semi-torcidos, bolhas nos pés, rabos doridos de impactos involuntários no chão à conta de Newton, tosses sintomáticas para diagnósticos futuros...tudo contribui para o rol de maleitas num grupo que caminha há 6 dias.

Mas chegámos ao seixal, as patologias são reagendadas para outras núpcias e o cansaço desaparece num ápice com a pavloviana lembrança do arroz de lapas que nos aguarda seguido de uma prova (sem esforço) do vinho Terras do Avô.

O nome da freguesia advém de Seixo ou Seiço, uma pequena árvore que dá no leito das ribeiras. A madeira proveniente destas pequenas árvores é muito boa para a elaboração de pipas e utilizada no armazenamento da principal produção desta freguesia, que é o vinho.

Sairemos do Seixal pela Ribeira do Inferno (que tem uma mística ponte do #CR23) com menos um elemento, Andreia, que entregou-se ao elixir do Avô... por matrimónio.

Parceiro #CR23: Bar Santiago

 

---

144,2 km @ São Vicente (1425?)

O percurso pela estrada da rocha que nos conduziu a São Vicente é, todo ele, um regresso ao passado. Desde a memória de situações dignas de um postal com dois autocarros a se cruzarem na exígua ER, até os relatos de Paulo Dias de Almeida sobre a perigosidade deste percurso onde sentenciava algum grau de demência aos locais para se aventurarem a passar sobre paus de urze feitos espetados no alto das rochas, sendo normal alguns caírem ao mar.

Nenhum de nós caiu mas o cansaço vai-se acumulando nas pernas e a vontade de chegar a Ponta Delgada é crescente. A Leninha ainda pensou duas vezes em tomar o Caminho Real 25 rumo ao Funchal mas depressa abandonou a ideia quando soube que os cerca de 35km faziam-se por "arribanços" e "abica-burros".

Falta pouco. E como diria Jorge Palma: "Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar."

A história local conta que no principio da colonização do que é hoje o concelho de S. Vicente, quando não havia lei nem ordem, os primeiros colonos construíram um pequeno povoado, que visto do mar ninguém poderia supor que ali existia gente ficando estes a salvo das violentas incursões dos bárbaros. Segundo reza a lenda, numa noite de inverno, um galeão naufragou nos mares do norte da Ilha e, no dia seguinte, uma imagem de S. Vicente era vista a boiar e para surpresa dos populares que ali se juntaram, vinha pousado em cima da imagem, um corvo, que quando a estatueta deu á costa, voou e desapareceu para nunca mais ser visto, os populares levaram a imagem para uma pequena capela que existia na aldeia, onde passaram a venerá-la, desta forma, originou-se o topónimo S. Vicente, pois naquela época, devido ao isolamento, era comum que os colonos encontrassem na fé um apoio aos duros tempos que então viviam. Ainda segundo a mesma lenda, a imagem desaparecia por várias vezes do altar, indo aparecer junto à rocha onde mais tarde foi edificada a actual capela.

Parceiro #CR23: Restaurante Many

---

148,5 km @ Ponta Delgada (1550?)

O lusco-fusco iluminava a nossa entrada em Ponta Delgada pelo sítio do Tanque. Com quase 30 km nas pernas desde o Porto Moniz, uma senhora saía de uma casa à beira do #CR23, a qual cumprimentámos com um sonoro: "Boa tarde!".

A resposta não se fez esperar com um sarcástico: "Tarde? Olhe, viesse mais cedo!".

Tinha razão. O dia acabou em noite fechada na mais longa jornada deste Caminho dos últimos 6 dias. Contudo, é impressionante como a chegada a um destino comum nos acomete na alma um alento natural que nos faz sentir capazes de mudar o mundo. E, na Ponta Delgada, com o peso da fé que para cá convergiu (e converge) milhares de romeiros, há vidas simples que mudam muitos mundos.

O nome Ponta Delgada foi atribuído, segundo ditado por Gaspar Frutuoso:

“…assim chamada por ser ali hum passo muito perigoso, que se passa por cima de dois paus, que atravessam de uma rocha a outra, e em tanta altura fica o mar por baixo que se perde a vista dos olhos”. A freguesia era também conhecida por "Corte do Norte", por aqui terem residido, durante séculos, antigas famílias e nobres famílias madeirenses.

O seu Padroeiro é o Senhor do Bom Jesus, celebrado no primeiro dia de Janeiro, cuja imagem, segundo a tradição, terá aparecido dentro de uma caixa, que deu à praia no ano de 1540.Contudo, é no primeiro fim-de-semana de Setembro que aqui se celebra o maior arraial da Madeira, em honra do Santíssimo sacramento, mais conhecido como o arraial do Bom Jesus, ao qual ocorrem romeiros de toda a ilha, cuja tradição remonta ao Séc. XVI, com as famosas romarias à Ponta Delgada.

Boa noite.

Parceiro #CR23: Snack Bar Enxurros

---

DIA 7 – 13 de Abril

---

150 km @ Ponta Delgada (1550?)

Apesar da chegada tardia da véspera, a noite foi bem dormida na Corte do Norte e o acordar encerra energias retemperadas para esta quinta-feira.

O grupo de 6 começa na igreja do Bom Jesus o penúltimo dia de caminhada nesta volta à ilha que já conta com centena e meia de quilómetros. Um dia limpo de céu azul prevê o sobreaquecimento dos radiadores nas muitas subidas que o caminho até Santana nos reserva.

Venham elas...

Alojamento Recomendado #CR23: Estalagem Côrte do Norte

 

 

 

---

154 km @ Boa Ventura (1733?)

As levadas correm cheias em Boa Ventura para matar a sede à variedade de produtos agrícolas que aqui se cultivam.

Os estabelecimentos comerciais no centro da freguesia anunciam precocemente um prato do dia a 5€ e Trombocid Gel "Para quando as suas pernas reclamam descanso!". Dispensável...'indagora começámos.

No adro, as celebrações pascais ocupam as preocupações dos paroquianos que não poupam esforços no embelezamento da igreja de Santa Quitéria que tem uma pia batismal digna de registo.

"Bonjour." - As saudações em língua francesa vão se multiplicando pelo caminho. Não devido a um regresso à sua terra natal dos muitos emigrantes em França mas com os inúmeros turistas que partilham este troço de #CR23 connosco.

Situada em terreno montanhoso, considerada por muitos como autêntico “santuário” da natureza, Boa Ventura é caraterizada por surpreendentes vales, rasgados por vários cursos de água como a emblemática Ribeira do Porco.

De acordo com o “Elucidário Madeirense”, é totalmente desconhecida a origem deste topónimo. Alberto Artur Sarmento, em “Freguesias da Madeira”, é de opinião que, nos primórdios do povoamento, estas terras terão sido chamadas de Boa ventura, alcunha dada ao seu povoador.

Daqui parte o Caminho Real 27, rumo ao Funchal, com passagem no Curral das Freiras via Boca das Torrinhas. Nós, continuando no #CR23 e deixando para trás duas das cinco contagens de montanha do dia, rumamos à terceira, saindo do concelho de São Vicente pela Ribeira do Porco, em direcção ao Arco de São Jorge pela sempre deslumbrante vereda da Entrosa.

Parceiro #CR23: Bar Tijolo

---

156,5 km @ Arco de São Jorge (1676)

"Galinhaaaaaas" - reverbera o som do megafone nas montanhas que se agigantam a sul anunciando aos arqueiros a chegada da carrinha que vende estes animais.

Toda a freguesia se prepara para a Páscoa apesar do lamento de uma senhora que descascava semilhas à beira do caminho por não ter demolhado tremoços este ano. "Vá à igreja que vale a pena.", diz com satisfação no rosto indiciando que a decoração contou com aquelas duas mãos que empunham faca e tubérculo. Nós obedecemos.

Pelo caminho, os poços de lavar roupa comunitários ainda ostentam a cantaria original onde, antes da mecanização da tarefa, se esfregavam nódoas com a força de braços e criavam-se outras, de caracter, com a soltura da língua. Uma espécie de rede social de idos tempos satisfazendo a mesma necessidade de escalpelizar vidas alheias.

A igreja estava à altura da recomendação. Florida com imensas cores e uma azulejaria sem igual na nossa ilha a retratar a via sacra, sob o olhar atento do olho da providência que encima o altar.

A origem do nome da Freguesia do Arco de São Jorge advém dos montes que a circundam em forma de “arco” e por se ter autonomizado da freguesia de São Jorge.

Este é um dos locais mais férteis de todo o norte da Ilha da Madeira, produzindo todos os géneros agrícolas, com grande destaque para o cultivo de cana-de-açúcar e da vinha. Os primeiros colonizadores eram provenientes de Portugal continental, concretamente do Minho e Algarve.

Numa das bonitas paragens de autocarro decoradas com painel de azulejos, figura uma quadra de Manuel Gonçalves, filho da freguesia e conhecido como Feiticeiro do Norte, poeta popular que versa:

"Quantos, quantos estarão,

Longe das suas cidades,

Que já não tornam a voltar,

As suas localidades."

Não se aplica a nós, caminheiros, que estamos de regresso a Machico deixando parte de nós no #CR23, o máximo na exigente subida até à Ribeira Funda (São Jorge).

Parceiro #CR23: Restaurante O Arco

---

165,5 km @ São Jorge (1517)

"Meia hora.; 45 minutos!; Eu sou cambado e faço isto em meia hora." - estava instalada a confusão no bar da Ribeira Funda entre dois senhores, enquanto disputavam uma cartada, sobre o tempo que levaria a percorrer o 'Caminho Velho' até São Jorge. Um pouco antes, no topo da angustiante subida do Arco, víamos uma octogenária a deslocar-se de bengala com evidentes dificuldades de locomoção à 'beira da assomada' para ver o Sr. São José de cá do alto, à falta de transporte para visitá-lo à igreja. Dois exemplos tomados à entrada da freguesia de São Jorge que demonstram que em matérias de tempo e de fé cada um vive o seu à sua maneira.

Levámos 45 minutos até à sopa, torresmos e borrego que pacientemente nos aguardava na Adega do Jardim. Após um almoço que pedia prolongamento com um passar pelas brasas descemos até à emblemática Igreja Matriz de São Jorge que encerra muitos segredos e deliciosos pormenores.

São Jorge foi uma das primeiras freguesias do concelho a ser povoada, sendo o seu núcleo no litoral, na zona do Calhau datado do século XVI. Uma das várias as hipóteses para a atribuição do nome à freguesia, refere que foi escolhido o santo guerreiro para padroeiro por analogia das suas forças às das ribeiras que circundam a freguesia que chegaram a destruir a capela inicial existente junto à foz.

É dessa foz caudalosa onde ficava outrora porto comercial e que hoje abre as portas da imaginação ao mundo arqueológico, que partiremos, exaustos, para a última subida do dia que nos levará a Santana pelo #CR23 via Achada do Garamacho. Para trás fica o mar à soleira da porta com este pescador como sentinela.

Parceiro #CR23: Cabo Aéreo Café

----

170,6 km @ Santana (1552)

A entrada na terra dos 'bragados', alcunha popular dos habitantes de Santana, provavelmente por ter sido povoada com minhotos de Braga, fez-se sem pressas. É cedo e estamos carecidos de algum repouso, depois das 5 subidas do dia, porque amanhã o dia promete...

A freguesia de Santana foi criada 25 anos depois da de São Jorge e, em 1835, assume-se como sede do concelho, explicando a rivalidade surda com os preteridos 'caiados' da freguesia vizinha que viram a sua histórica superioridade económica e eclesiástica ultrapassada por decisão política.

O #CR23 na Achada do Garamacho é um exemplo no atinente à recuperação deste património levado a cabo pela CM Santana. Logo acima, o #CR23 contorna um belíssimo prédio devoluto, que em 1850 albergou a primeira unidade hoteleira do Concelho, o Hotel Acciaioli, em 1850, a aguardar a veracidade dos rumores de uma eventual reabilitação.

Está concluído o penúltimo dia do #CR23 e a dezena de pés que caminham juntos desde Machico já entraram em piloto automático comungando de um espírito de entreajuda como só o 'Caminho' oferece.

Amanhã é Sexta-feira Santa e é tradição jejuar ou não comer carne. Destarte, hoje deleitaremos o palato com uma espetada regional.

Parceiro #CR23: Restaurante Bragados

---

DIA 8 – 14 de Abril

---

171,2 km @ Santana (1552)

A Pousada da Juventude de Santana é um luxo onde até o despertador toca num melódico chilrear. Após uma noite de sono intermitente a antecipar o último dia de caminhada, o acordar mostra um ranger dos joelhos e tornozelos como se de portas velhas de tratassem.

Nada que os primeiros metros até à igreja, local de intercessão do #CR23 com o Caminho Real 24 (Funchal - Poiso - Santana), não desentorpeçam. O adro está deserto e as poucas pessoas reúnem no bar contíguo à mercearia que conta entre os seus produtos gaiado e tremoços secos.

Hoje o grupo soma 26 pernas para ultrapassar os quase 30 km até Machico e, pelo meio, a subida da Cruz da Guarda até à Portela a se assumir como um calvário debaixo desde sol.

Ao caminho!

Alojamento Recomendado #CR23: Pousada da Juventude de Santana

---

177,6 km @ Faial (1550)

O dia começou com uma ligeira subida até ao Cortado feita com a frescura da sombra matinal. As vistas sobre a Ponta de São Lourenço e a imponência da Penha de Água regatam a atenção colectiva.

Latidos nervosos provenientes de dentro dos quintais anunciavam a nossa presença aos donos das casas na descida do Tojal. Talvez por ser dia santo, na terra dos 'Fanheiros' não encontramos ninguém a trabalhar a fazenda onde crescem viçosos milho, feijão, semilhas e batata doce.

Esta freguesia deve o seu nome a uma concentração de faias que aí existiam e terá sido, junto com São Jorge, uma das primeiras a ser povoadas na costa Norte.

Na altura, o vigário era obrigado a ensinar a doutrina aos paroquianos com um vencimento de 25 mil reis, ao que se acresce 30 alqueires de trigo e um quarto de vinho para as “despesas de sacristia”.

Em 1904 foi aqui iniciada a construção da maior ponte da Madeira à data, com 130 metros de comprimento e sete arcos de pedra, ficando conhecida como 'ponte das sete bocas'. Esta ponte foi irremediavelmente destruída pela fúria das águas quando, em 1984, derrubou 4 dos 7 arcos.

Na subida do sítio dos Moinhos voltam os latidos em 'dolby surround' quando encontramos o sr. Laurindo, de botas de agua e balde na mão cumprimentando-nos com simpatia." Eu moro ali em cima mas vim matar saudades do sítio onde nasci" - diz-nos.

Nós também vamos a caminho de casa, mas primeiro entraremos em Machico pelo Porto da Cruz.

Parceiro #CR23: Restaurante Ponte Velha

---

183,0 km @ Porto da Cruz (1577)

O ansiado almoço esperava por nós no único restaurante aberto no centro do Porto da Cruz, em frente à igreja nova projectada pelo Arq. Chorão Ramalho em 1958. Salada de atum porque o dia não permite saborear os prazeres da carne...cozinhada.

O sol abrasa na terra dos 'Broquilhas' enquanto começámos a subir o #CR23 em direcção à Cruz da Guarda para encontrar dois obstáculos nas duas ribeiras que persistem desde o malogrado temporal de 2013 que assolou o Porta do Cruz.

O grupo logrou facilmente a sua transposição comprovando que, nesta como noutras situações que enfrentamos pela vida fora, sozinhos podemos ir mais rápido, mas juntos chegamos mais longe.

O nome desta freguesia advém do reconhecimento da costa Norte por altura da descoberta da ilha. Os exploradores ergueram no porto desta povoação uma cruz feita de paus retirados da ribeira dando origem ao topónimo Porto da Cruz. É uma freguesia eminentemente rural, onde a actividade predominante é a agricultura sendo famoso o "vinho americano" produzido, ao contrário de outras localidades, com as vinhas junto à terra. A cana de açúcar é também muito popular nesta freguesia, com um histórico Engenho a Vapor em funcionamento, único na Europa, produzindo a típica aguardente de cana, das quais se destacam as "970" e "980".

Nós dispensámos a degustação dos distintos digestivos, pelo menos até à Portela. Segue-se a subida da Cruz da Guarda, última prova de esforço que o #CR23 nos reserva, e convém manter a integridade de todas as faculdades psíquicas e motoras.

Parceiro #CR23: Snack Bar "José Pequenino"

---

188,6 km @ Santo António da Serra (1848)

Regressámos à costa sul por uma subida de fazer aquecer a temperatura do motor mais bem oleado. Até à Portela encontrámos um misto de floresta endémica e exótica com paredes revestidas a musgo a ladear a ladeira de pedra que nos eleva as vistas sobre o Norte e corta a respiração.

À nossa espera na Portela, freguesia do Santo António da Serra, estavam 6 caminheiros que nos aguardavam com um refresco proporcionado pela ACRM.

A parte pertencente a Machico tem terrenos férteis e verdejantes que se encontram um pouco ao longo de toda a freguesia, sendo o pêro um dos principais, particularmente utilizado na produção da sidra.

Fruto de uma longa disputa aquando da delimitação da sua área entre os concelhos de Machico e Santa Cruz, é a única freguesia da Ilha da Madeira que esta dividida entre dois concelhos.

Um interessante episódio ocorreu quando, no reinado de D. Maria I estabeleceu-se nesta freguesia uma aldeia para a população do Porto Santo, sendo distribuídas casas gratuitamente como resposta à fome que grassava na ilha vizinha, tomando o nome de 'Aldeia da Rainha'. Contudo, os portosantenses não se adaptaram à humidade e ao frio do clima de Santo António da Serra, abandonando o local, tendo a referida aldeia ficado sob a jurisdição de Machico.

Com 36 das 37 freguesias concluídas no #CR23 rumamos a Machico para o último selo.

Parceiro #CR23: Restaurante Portela à Vista

---

197 km @ Machico (1440)

Os últimos metros de #CR23 na chegada a Machico cumpriram-se com passinhos curtos. Fica por explicar se tal parcimónia se deverá ao cansaço acumulado nos últimos 8 dias de viagem ou à vontade instintiva de continuar n'O Caminho.

Chegámos com custo pelo antigo aqueduto de Machico até à igreja Matriz até ao sopé da estátua do mesmo Tristão que nos viu partir há uma semana.

Ente as varias hipóteses que estão na origem do nome de Machico, a mais conhecida é a lenda romântica dos malogrados amantes ingleses Robert Machim e Ana d´Arfet. Assim, o nome desta localidade parece advir da corruptela da palavra Machim.

Hoje, tivemos a honra de ser recebidos pelo presidente de Machico, Ricardo Franco.

O relato desta jornada, que juntou os seis caminheiros Miguel Silva Gouveia, Isabel Silva, José Luís, Sandra Silva, Cecília Pontes e Antero Santana, concluir-se-á aqui. Fica, porém, a certeza que o #CR23 ficará gravado nas experiências de todos aqueles que juntaram os seus pés aos nossos.

Paulo Bruno Ferreira, Duarte Caldeira Ferreira, Andreia Caetano, Leninha Baeta, Nicola Pestana, Gomes, Nelson Rosário, Paulo Pereira, Catarina Barreira, João Francisco Pestana, Ana Gouveia, Duarte Leça, Matilde Gouveia, Francisco Silva de Gouveia, Mónica Sousa, Cipriano Barbosa, Sílvio Silva, Roberto Silva, Marta Silva, ProgressoCar Medeiros, António Gouveia, Cristina Costa E Silva, Kiki Zeka Rosa, Marco Cabral, Rodolfo Silva, Nicol Menezes, Rubina Abreu, Dário Nóbrega e Duarte Fernandes.

É tempo de abrir as portas à saudade.

Ao Caminho Real...Até já!

Parceiro #CR23: Bar da Chupa

gallery/1ocr23 (0)
gallery/1ocr23 (7)
gallery/1ocr23 (5)
gallery/scruz
gallery/1ocr23 (9)
gallery/1ocr23 (21)
gallery/1ocr23 (19)
gallery/1ocr23 (20)
gallery/1ocr23 (18)
gallery/1ocr23 (25)
gallery/1ocr23 (15)
gallery/1ocr23 (26)
gallery/1ocr23 (29)
gallery/1ocr23 (23)
gallery/1ocr23 (30)
gallery/tab
gallery/1ocr23 (28)
gallery/1ocr23 (10)
gallery/1ocr23 (2)
gallery/1ocr23 (3)
gallery/1ocr23 (13)
gallery/1ocr23 (24)
gallery/1ocr23 (16)
gallery/1ocr23 (11)
gallery/1ocr23 (12)
gallery/1ocr23 (8)
gallery/1ocr23 (22)
gallery/parg
gallery/1ocr23 (38)
gallery/pmo
gallery/1ocr23 (39)
gallery/1ocr23 (34)
gallery/1ocr23 (33)
gallery/1ocr23 (32)
gallery/1ocr23 (17)
gallery/1ocr23 (31)
gallery/boav
gallery/1ocr23 (27)
gallery/1ocr23 (6)
gallery/1ocr23 (37)
gallery/1ocr23 (40)
gallery/1ocr23 (42)
gallery/1ocr23 (35)
gallery/1ocr23 (41)
gallery/1ocr23 (1)